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ESQUIZÓIDES OU COVARDES?


Obviamente, o título é uma provocação. Vivemos em um tempo em que alguém só é lido, ouvido ou assistido quando gera alguma polêmica. Não é minha intenção; sinto decepcionar se essa é a sua procura.


Na psicanálise, o termo esquizoide não se refere apenas a um diagnóstico psiquiátrico (como o Transtorno de Personalidade Esquizoide no DSM), mas sim a uma estrutura de personalidade, um modo de funcionamento defensivo e uma forma específica de se relacionar com o mundo e com os outros. É a definição psicanalítica que me interessa aqui.


O núcleo da angústia esquizoide é um conflito intenso entre a necessidade de conexão e o terror da aniquilação. Por um lado, o indivíduo tem uma fome profunda de amor e relacionamento humano. Por outro, sente que se aproximar intimamente de alguém resultará em ser engolido, controlado ou destruído pelo outro — ou, ainda, que o seu próprio amor e necessidade são tão vorazes que irão destruir o objeto amado. O resultado? Para se proteger, a pessoa se retrai. Ela escolhe a segurança do isolamento em vez do perigo da conexão.


A esquizoidia é, por definição, uma das defesas do nosso psiquismo. Se olharmos para essa defesa sob o aspecto caracterológico de Wilhelm Reich, entenderemos que ela construiu a vida de um indivíduo, suas escolhas e, principalmente, as suas relações.


Mas, no contexto atual, o entendimento de um terapeuta sobre esse caráter é suficiente? Na clínica, quando nos deparamos com um sujeito que apresenta tal defesa, isso basta para estabelecer as relações de transferência tão importantes para o trabalho psicanalítico?


Quando sugeri o título deste texto, fui contestado: covardia ou medo? A contestação é prudente, faz sentido, e por isso refaço a pergunta: o medo de aniquilação do esquizoide é tão fantasioso quanto o diagnóstico de sua condição pressupõe? Ou há também a ignorância do terapeuta e sua não percepção dessa realidade de aniquilação tão presente hoje, que faz parte da realidade constante que as redes sociais propõem ao indivíduo?


Entendemos que a persona apresentada nas redes sociais é um avatar, um objeto virtual que atua como uma representação de nós mesmos. Talvez a palavra “marca” seja a melhor que podemos encontrar para tal definição. E qualquer ataque, qualquer movimento coordenado de pessoas contra suas ideias, seus pensamentos e suas contestações, pode custar muito caro a essa marca. Logo, custará caro também à condição real desse indivíduo — pois quem, hoje, é capaz de delimitar onde uma começa e a outra termina?


Parece-me que um terapeuta que, seja por sua ignorância, por sua percepção política ou pelos seus valores, ignore a presença constante dessa aniquilação real estará fadado a fracassar na condução de sua clínica. Principalmente quando o desejo profundo do seu paciente for fazer parte de um grupo, e ele acabar sendo reduzido a um simples e mero “esquizoide”.


Na era do avatar e da "marca" pessoal nas redes, a aniquilação é um risco social e material real (o cancelamento, o linchamento virtual, a destruição da reputação). Patologizar a angústia do paciente e reduzi-lo ao rótulo de "mero esquizoide", ignorando a violência objetiva das redes sociais e a confusão moderna entre sujeito e imagem pública, é um fracasso ético e técnico na condução do caso. 

É uma angústia sistêmica, e não apenas individual. 


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