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O Agente Secreto | Crítica

Quando Martin Scorsese fez a provocação de que os filmes da Marvel não eram cinema, poucas pessoas foram atrás de entender o que ele estava dizendo. Durante a polêmica, ele chegou a escrever um texto muito bonito, explicando seu ponto de vista. Basicamente, sua afirmação passa pela ideia de que o cinema precisa correr riscos: fazer arte implica tentativa, erro e experimentação para, por fim, chegar a algo que ele classificava ali como cinema. Logo, os filmes da Marvel não contêm esse tipo de raciocínio em sua produção. Eles seguem uma fórmula que existe há muitos anos na indústria hollywoodiana e que está cada vez mais enraizada, principalmente pela lógica neoliberal, que hoje possui contornos muito mais graves do que nos anos 70, 80 e 90. Hoje, a pesquisa de mercado e o algoritmo tentam contribuir ao máximo para aniquilar o risco, e, para Scorsese, isso mata o cinema. Isso mata a arte.


Sou do time de Scorsese. Talvez até um pouco mais radical, pois acrescentaria a essa polêmica o fator da encenação. Se vamos ao cinema apenas para ver “talking heads” — como Hitchcock chamava as “cabeças falantes” —, ou seja, se vamos ao cinema para ver imagens de pessoas discursando sobre o que sentem e o que querem, e nada acontece no campo das movimentações e das relações entre os corpos, o protagonista e o espaço, não estamos vendo cinema. Estamos vendo imagem e som contarem uma história, mas não uma história que precise, de fato, ser contada através da linguagem cinematográfica. E, para mim, é nessa estranheza que reside todo o fuzuê com O Agente Secreto.


Há quanto tempo você não assiste a um filme em que não se localiza muito bem dentro da estrutura aristotélica clássica? Quero dizer, há quanto tempo você não se depara com um filme sem aquele começo, meio e fim óbvios, ou sem um protagonista que sofre transformações claras no decorrer de suas ações e escolhas? Conversando com uma amiga que não é tão ligada ao cinema, fiquei extasiado quando ela afirmou que nunca tinha assistido a um filme sobre "o sentimento de uma coisa" em vez de sobre a coisa em si. Naquele momento, percebi que o cenário era diferente do que eu pintava.


Para mim, o cinema vinha perdendo cada vez mais sua potência como linguagem, como arte e como risco; mas, para algumas pessoas, esse cinema de risco simplesmente nunca existiu. Imagine o que seria de Cidade dos Sonhos, Funny Games, Terra em Transe, Cléo das 5 às 7, Hiroshima Mon Amour e tantos outros clássicos se não fosse a existência de produtores, cineastas e artistas dispostos a apostar em obras de arte que explorassem sentimentos muito mais complexos do que a mera habilidade de contar uma história fechada em seu próprio universo?


Uma outra amiga fez uma belíssima comparação entre os dois últimos filmes sobre a ditadura que ganharam os holofotes recentemente: Ainda Estou Aqui é sobre as coisas que aconteciam na ditadura; O Agente Secreto é sobre os efeitos da ditadura. Sobre como ela estava presente nas conversas e em suas simbologias.


No documentário O Guia Pervertido da Ideologia, Slavoj Žižek usa o tubarão de Jaws (Tubarão), o mesmo que Kleber Mendonça Filho se apropria em toda a narrativa de seu filme, como um exemplo bem direto de como a ideologia funciona — não como algo escondido por trás da realidade, mas como algo que organiza a própria forma como percebemos o mundo. Žižek chama atenção para o fato de que o tubarão quase não aparece no começo do filme, e mesmo assim, ele está em toda parte. O medo não vem da imagem explícita, mas da presença estrutural daquilo que organiza a tensão. A ideia central dele é que o tubarão funciona como uma espécie de “vazio preenchido por projeções”. Cada personagem, cada grupo social, projeta ali seu próprio medo: crise econômica, ameaça externa, colapso da ordem, etc.


O ponto mais interessante de Žižek é a recusa da ideia simples de que ideologia é só mentira ou engano. Para ele, a ideologia é justamente o que dá forma ao real, mesmo quando sabemos que há algo artificial ali. No caso de Jaws, o tubarão vira uma espécie de objeto ideológico puro: não importa exatamente o que ele é, mas o que ele permite organizar — o medo coletivo, as decisões políticas (como manter a praia aberta) e até a negação da realidade.


Há uma cena marcante em que Žižek literalmente entra no cenário do filme e comenta como, mesmo quando o tubarão não está visível, ele já estrutura toda a narrativa. É quase como se dissesse: o verdadeiro poder não está na aparição do monstro, mas na forma como tudo já gira em torno dele antes mesmo de podermos vê-lo.


E é aqui que reside a grandiosidade de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. Não é um filme que propõe respostas. Não é um filme que joga com sentimentos baratos de sedução para que a gente abrace uma ideia ou um discurso. Quem diz que o filme é panfletário não sabe absolutamente nada sobre cinema ou sobre o que está falando.


É por essa e outras que acredito que o filme seja tão incômodo para tantas pessoas. Vivemos tempos em que o cinema está sufocado, preso contra a parede. Eu mesmo, que tantas vezes escrevi histórias malucas e complexas apostando na potencialidade da linguagem cinematográfica, me pego rendido a escrever histórias fechadas, tentando ajudar o leitor ou espectador a se encontrar no enredo e entender a “mensagem” que quero passar. E essa simplificação só me faz pensar que hoje escrevo para um cliente e não para me comunicar ou me relacionar com um outro.


São tempos estranhos. Perdemos completamente a noção do que abrimos mão como campo político, como intelectualidade e como seres humanos em nome da praticidade, de um senso estético claro e de fácil comunicação — em nome do dinheiro.


Amém.

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